Brain rot: como vídeos gerados por IA estão afetando a atenção das crianças

Vídeos criados por inteligência artificial, algoritmos cada vez mais eficientes e conteúdos de consumo rápido estão transformando a forma como crianças interagem com o ambiente digital. O fenômeno conhecido como "brain rot" ganhou espaço nas redes sociais, mas o que realmente diz a psicologia e a neurociência sobre esse assunto?

INSIGHTS

Laura A. A. Costa

7/29/202618 min read

Nos últimos anos, vídeos gerados por inteligência artificial passaram a ocupar um espaço crescente nas plataformas digitais. Animações coloridas, histórias sem lógica aparente, personagens conhecidos em situações improváveis e estímulos visuais constantes são produzidos em grande escala e distribuídos por algoritmos que priorizam retenção de audiência.

Foi nesse cenário que ganhou força o termo brain rot ("apodrecimento do cérebro", em tradução livre). Apesar da popularidade nas redes sociais e de ter sido escolhido como Palavra do Ano de 2024 pela Oxford University Press, o termo não é um diagnóstico médico. Ele representa uma preocupação social sobre o consumo excessivo de conteúdos superficiais e altamente estimulantes: como esse tipo de consumo pode influenciar o desenvolvimento da atenção, da aprendizagem e da autorregulação das crianças?

Ao mesmo tempo, reportagens da BBC e de outros veículos internacionais mostram que o aumento desse tipo de conteúdo coincide com um debate crescente entre pesquisadores de psicologia e neurociência: até que ponto esses estímulos influenciam o desenvolvimento infantil? O problema não está apenas na utilização da IA, mas na combinação entre algoritmos de recomendação altamente eficientes e conteúdos desenvolvidos para capturar atenção durante o maior tempo possível.

Mas será que existe evidência científica de que isso realmente afeta o cérebro? Ou estamos diante de mais um pânico tecnológico semelhante ao que ocorreu com a televisão, os videogames e as redes sociais em décadas anteriores?

A resposta é mais complexa do que parece.

Em poucas palavras
  • 🧠Brain rot é um termo popular, não um diagnóstico clínico.

  • 📲Vídeos gerados por IA podem ser produzidos em grande escala e distribuídos por algoritmos que priorizam retenção.

  • 🍼O cérebro infantil responde de forma diferente a estímulos rápidos e imprevisíveis porque ainda está em desenvolvimento.

  • 💤Não há evidências de que esses vídeos "danifiquem" o cérebro, mas existem estudos relacionando o uso excessivo de telas a dificuldades de atenção, sono e autorregulação.

  • ⚠️O principal debate envolve a economia da atenção, e não a inteligência artificial em si.

O que é o fenômeno conhecido como "brain rot"?

Apesar da enorme popularidade nas redes sociais, brain rot não é um conceito científico nem uma condição médica.

A expressão passou a ser usada para descrever a sensação de desgaste mental causada pelo consumo contínuo de conteúdos muito rápidos, repetitivos ou considerados superficiais. Em 2024, a Oxford University Press escolheu o termo como Palavra do Ano, definindo-o como a deterioração percebida do estado mental ou intelectual provocada pelo consumo excessivo desse tipo de conteúdo.

Isso, porém, não significa que exista comprovação de que o cérebro esteja literalmente "apodrecendo". O termo representa um fenômeno cultural. A ciência, por outro lado, procura entender como determinados padrões de consumo digital podem influenciar funções como atenção, memória e controle dos impulsos.

Pesquisadores como Jean Twenge, da San Diego State University, destacam que a preocupação não está apenas no tempo de tela, mas no que deixa de ser feito quando ele ocupa grande parte do dia, como brincar, dormir, ler ou conviver presencialmente.

Por que vídeos gerados por IA prendem tanto a atenção?

O diferencial desses vídeos não está apenas no uso da inteligência artificial, mas na velocidade com que podem ser produzidos.

Ferramentas de IA permitem criar centenas de vídeos em pouco tempo, oferecendo às plataformas um fluxo praticamente infinito de novos conteúdos. Os algoritmos então selecionam aqueles que conseguem manter o usuário assistindo por mais tempo.

Muitos desses vídeos utilizam mudanças rápidas de imagem, cores intensas, sons chamativos e narrativas imprevisíveis. Esses elementos exploram um mecanismo conhecido na psicologia cognitiva como captura atencional (attentional capture): nosso cérebro tende a direcionar automaticamente a atenção para novidades e estímulos inesperados.

Segundo o neurocientista Michael Posner, a atenção depende da interação entre diferentes redes neurais responsáveis por alerta, orientação e controle executivo. Quanto maior a quantidade de estímulos relevantes em sequência, maior tende a ser o recrutamento dessas redes.

Isso não significa que esses vídeos sejam prejudiciais por si só, mas ajuda a explicar por que conseguem prender a atenção com tanta facilidade.

O cérebro infantil responde de forma diferente?

Sim. E esse é um dos principais motivos pelos quais o tema desperta interesse na comunidade científica.

Durante a infância e a adolescência, o cérebro ainda passa por um intenso processo de desenvolvimento. Regiões como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, autocontrole e tomada de decisões, continuam amadurecendo até o início da vida adulta.

Ao mesmo tempo, sistemas ligados à recompensa e à busca por novidades já funcionam de forma bastante ativa. Esse desequilíbrio faz com que crianças e adolescentes tenham mais dificuldade para interromper atividades altamente estimulantes.

A American Academy of Pediatrics alerta que o problema não é o uso da tecnologia em si, mas quando ela passa a substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento, como sono adequado, atividade física, leitura, brincadeiras e interação social.

Por causa da elevada plasticidade cerebral nessa fase da vida, os hábitos construídos durante a infância tendem a influenciar padrões futuros de atenção e autorregulação. É justamente por isso que pesquisadores vêm acompanhando com atenção o crescimento de conteúdos produzidos por IA e distribuídos por algoritmos altamente eficientes.

O problema está na inteligência artificial ou na economia da atenção?

É natural associar esse debate à inteligência artificial, mas ela não é a causa do problema. A IA apenas tornou mais fácil produzir grandes volumes de conteúdo. O verdadeiro desafio está no modelo de negócio adotado pelas plataformas digitais.

Hoje, redes sociais e serviços de vídeo fazem parte da chamada economia da atenção, em que o principal objetivo é manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. Quanto maior o tempo de permanência, maior a exibição de anúncios, a coleta de dados e a receita das empresas.

Esse conceito não é novo. Em 1971, o economista Herbert A. Simon, vencedor do Prêmio Nobel, escreveu que "uma abundância de informação cria uma pobreza de atenção". Décadas depois, essa ideia se tornou uma das melhores descrições do funcionamento das plataformas digitais.

A inteligência artificial ampliou esse cenário ao permitir que vídeos fossem produzidos em escala praticamente ilimitada. Em vez de escolher o conteúdo mais informativo ou educativo, os algoritmos tendem a priorizar aquele que gera maior retenção de audiência.

Por que esse tipo de conteúdo é tão difícil de ignorar?

A resposta está no funcionamento natural do cérebro.

Quando encontramos algo novo, inesperado ou potencialmente interessante, nosso cérebro ativa sistemas relacionados à atenção e à motivação. Entre eles está a dopamina, neurotransmissor frequentemente associado à sensação de recompensa.

Embora muitas vezes seja chamada de "hormônio do prazer", a dopamina atua principalmente na antecipação da recompensa. Pesquisas do neurocientista Wolfram Schultz mostram que ela é liberada com mais intensidade quando existe incerteza sobre o que acontecerá em seguida.

É exatamente essa lógica que alimenta os feeds infinitos das redes sociais. Cada novo vídeo pode ser melhor, mais engraçado ou mais surpreendente que o anterior, incentivando o usuário a continuar assistindo.

Outro conceito importante é o reforço intermitente, descrito pelo psicólogo B. F. Skinner. Quando as recompensas aparecem de forma imprevisível, a tendência é que o comportamento seja repetido por mais tempo. É um mecanismo observado em jogos, redes sociais e diversas plataformas digitais.

Isso não significa que vídeos produzidos por IA sejam "viciantes" por definição, mas ajuda a explicar por que conseguem manter a atenção de forma tão eficiente.

O que a ciência já sabe — e o que ainda não sabe

Grande parte das discussões sobre brain rot acontece nas redes sociais, mas a literatura científica ainda trata o tema com cautela.

Até o momento, não existem evidências de que vídeos gerados por inteligência artificial causem danos permanentes ao cérebro. Essa afirmação simplesmente não encontra respaldo nas pesquisas disponíveis.

Por outro lado, há um número crescente de estudos mostrando que o uso excessivo de telas, principalmente quando substitui atividades importantes para o desenvolvimento, pode estar associado a dificuldades de atenção, pior qualidade do sono, menor desempenho acadêmico e desafios relacionados à autorregulação.

Uma revisão publicada na JAMA Pediatrics encontrou associações entre maior tempo de tela e alterações em aspectos do desenvolvimento infantil, enquanto uma revisão da Nature Human Behaviour reforçou que os efeitos dependem de diversos fatores, como idade, qualidade do conteúdo, ambiente familiar e tempo de exposição.

Em outras palavras, a ciência aponta que o contexto importa tanto quanto o tempo de uso. Assistir a um vídeo educativo acompanhado pelos pais é muito diferente de passar horas consumindo conteúdos rápidos e repetitivos sem qualquer mediação.

Essa distinção é fundamental para evitar conclusões simplistas e compreender o problema de forma mais equilibrada.

📊 Como esse ciclo funciona?

Conteúdo altamente estimulante

Mudanças rápidas de imagem, som e narrativa

Maior ativação dos mecanismos automáticos de atenção

Mais tempo de permanência na plataforma

O algoritmo identifica maior retenção

Conteúdos semelhantes passam a ser recomendados

O usuário consome menos variedade de estímulos

A tendência é permanecer mais tempo conectado

Esse fluxo não representa uma doença nem um efeito inevitável. Ele ilustra como plataformas digitais podem reforçar determinados padrões de consumo quando o objetivo principal é maximizar a atenção do usuário.

O que esse debate ensina sobre o futuro da tecnologia?

O fenômeno conhecido como brain rot mostra que o impacto da tecnologia vai muito além do desenvolvimento de novas ferramentas. O desafio está em compreender como essas ferramentas são projetadas e quais comportamentos elas incentivam.

A inteligência artificial pode criar experiências educacionais, facilitar o acesso ao conhecimento e ampliar possibilidades de aprendizagem. Ao mesmo tempo, também pode ser utilizada para produzir uma quantidade praticamente infinita de conteúdos pensados apenas para prender a atenção.

Por isso, especialistas defendem que o debate não deve se concentrar em proibir a tecnologia, mas em promover alfabetização digital, incentivar hábitos saudáveis e desenvolver plataformas que priorizem qualidade de experiência, especialmente para crianças e adolescentes.

Mais do que perguntar se a IA está mudando o cérebro das novas gerações, talvez a questão mais importante seja outra: estamos usando a tecnologia para ampliar nossa capacidade de aprender ou apenas para disputar cada segundo da nossa atenção?

Conclusão

O termo brain rot surgiu como uma expressão popular, mas acabou abrindo espaço para uma discussão muito mais profunda sobre comportamento digital, desenvolvimento infantil e economia da atenção.

Até agora, as evidências científicas indicam que não há motivos para afirmar que vídeos gerados por IA "estragam o cérebro". No entanto, existe um consenso crescente de que ambientes digitais altamente estimulantes merecem atenção, principalmente quando substituem experiências essenciais para o desenvolvimento, como brincar, dormir, estudar e conviver com outras pessoas.

A inteligência artificial continuará transformando a forma como produzimos e consumimos conteúdo. O grande desafio será garantir que essa evolução tecnológica caminhe junto com o conhecimento produzido pela psicologia, pela neurociência e pela educação. Afinal, entender como a tecnologia influencia o comportamento humano talvez seja tão importante quanto desenvolver a próxima inovação.

📚 Continue explorando

Fontes e Referências

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and Young Minds. Pediatrics, v. 138, n. 5, e20162591, 2016. DOI: https://doi.org/10.1542/peds.2016-2591.

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Health Advisory on Social Media Use in Adolescence. Washington, DC: APA, 2023.

BBC NEWS BRASIL. Reportagens sobre conteúdos gerados por inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese. Acesso em: 29 jul. 2026.

CNN. Reportagens sobre inteligência artificial, algoritmos e comportamento digital. Disponível em: https://www.cnn.com. Acesso em: 29 jul. 2026.

MADIGAN, Sheri et al. Association Between Screen Time and Children's Performance on a Developmental Screening Test. JAMA Pediatrics, v. 173, n. 3, p. 244–250, 2019. DOI: https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2018.5056.

OXFORD UNIVERSITY PRESS. Word of the Year 2024: Brain Rot. Oxford: Oxford University Press, 2024. Disponível em: https://corp.oup.com/word-of-the-year/. Acesso em: 29 jul. 2026.

POSNER, Michael I.; ROTHBART, Mary K. Attention, Self-Regulation and Consciousness. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 353, n. 1377, p. 1915–1927, 1998.

SCHULTZ, Wolfram. Dopamine Reward Prediction Error Coding. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 18, n. 1, p. 23–32, 2016.

SIMON, Herbert A. Designing Organizations for an Information-Rich World. In: GREENBERGER, Martin (ed.). Computers, Communications, and the Public Interest. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1971.

SKINNER, Burrhus Frederic. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.

UNICEF. The State of the World's Children 2017: Children in a Digital World. New York: UNICEF, 2017.

VALKENBURG, Patti M.; MEIER, Adrian; BEYENS, Ine. Social Media Use and Its Impact on Adolescent Mental Health: An Umbrella Review of the Evidence. Current Opinion in Psychology, v. 44, p. 58–68, 2022.

Nos últimos anos, vídeos gerados por inteligência artificial passaram a ocupar um espaço crescente nas plataformas digitais. Animações coloridas, histórias sem lógica aparente, personagens conhecidos em situações improváveis e estímulos visuais constantes são produzidos em grande escala e distribuídos por algoritmos que priorizam retenção de audiência.

Foi nesse cenário que ganhou força o termo brain rot ("apodrecimento do cérebro", em tradução livre). Apesar da popularidade nas redes sociais e de ter sido escolhido como Palavra do Ano de 2024 pela Oxford University Press, o termo não é um diagnóstico médico. Ele representa uma preocupação social sobre o consumo excessivo de conteúdos superficiais e altamente estimulantes: como esse tipo de consumo pode influenciar o desenvolvimento da atenção, da aprendizagem e da autorregulação das crianças?

Ao mesmo tempo, reportagens da BBC e de outros veículos internacionais mostram que o aumento desse tipo de conteúdo coincide com um debate crescente entre pesquisadores de psicologia e neurociência: até que ponto esses estímulos influenciam o desenvolvimento infantil? O problema não está apenas na utilização da IA, mas na combinação entre algoritmos de recomendação altamente eficientes e conteúdos desenvolvidos para capturar atenção durante o maior tempo possível.

Mas será que existe evidência científica de que isso realmente afeta o cérebro? Ou estamos diante de mais um pânico tecnológico semelhante ao que ocorreu com a televisão, os videogames e as redes sociais em décadas anteriores?

A resposta é mais complexa do que parece.

Em poucas palavras
  • 🧠Brain rot é um termo popular, não um diagnóstico clínico.

  • 📲Vídeos gerados por IA podem ser produzidos em grande escala e distribuídos por algoritmos que priorizam retenção.

  • 🍼O cérebro infantil responde de forma diferente a estímulos rápidos e imprevisíveis porque ainda está em desenvolvimento.

  • 💤Não há evidências de que esses vídeos "danifiquem" o cérebro, mas existem estudos relacionando o uso excessivo de telas a dificuldades de atenção, sono e autorregulação.

  • ⚠️O principal debate envolve a economia da atenção, e não a inteligência artificial em si.

O que é o fenômeno conhecido como "brain rot"?

Apesar da enorme popularidade nas redes sociais, brain rot não é um conceito científico nem uma condição médica.

A expressão passou a ser usada para descrever a sensação de desgaste mental causada pelo consumo contínuo de conteúdos muito rápidos, repetitivos ou considerados superficiais. Em 2024, a Oxford University Press escolheu o termo como Palavra do Ano, definindo-o como a deterioração percebida do estado mental ou intelectual provocada pelo consumo excessivo desse tipo de conteúdo.

Isso, porém, não significa que exista comprovação de que o cérebro esteja literalmente "apodrecendo". O termo representa um fenômeno cultural. A ciência, por outro lado, procura entender como determinados padrões de consumo digital podem influenciar funções como atenção, memória e controle dos impulsos.

Pesquisadores como Jean Twenge, da San Diego State University, destacam que a preocupação não está apenas no tempo de tela, mas no que deixa de ser feito quando ele ocupa grande parte do dia, como brincar, dormir, ler ou conviver presencialmente.

Por que vídeos gerados por IA prendem tanto a atenção?

O diferencial desses vídeos não está apenas no uso da inteligência artificial, mas na velocidade com que podem ser produzidos.

Ferramentas de IA permitem criar centenas de vídeos em pouco tempo, oferecendo às plataformas um fluxo praticamente infinito de novos conteúdos. Os algoritmos então selecionam aqueles que conseguem manter o usuário assistindo por mais tempo.

Muitos desses vídeos utilizam mudanças rápidas de imagem, cores intensas, sons chamativos e narrativas imprevisíveis. Esses elementos exploram um mecanismo conhecido na psicologia cognitiva como captura atencional (attentional capture): nosso cérebro tende a direcionar automaticamente a atenção para novidades e estímulos inesperados.

Segundo o neurocientista Michael Posner, a atenção depende da interação entre diferentes redes neurais responsáveis por alerta, orientação e controle executivo. Quanto maior a quantidade de estímulos relevantes em sequência, maior tende a ser o recrutamento dessas redes.

Isso não significa que esses vídeos sejam prejudiciais por si só, mas ajuda a explicar por que conseguem prender a atenção com tanta facilidade.

O cérebro infantil responde de forma diferente?

Sim. E esse é um dos principais motivos pelos quais o tema desperta interesse na comunidade científica.

Durante a infância e a adolescência, o cérebro ainda passa por um intenso processo de desenvolvimento. Regiões como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, autocontrole e tomada de decisões, continuam amadurecendo até o início da vida adulta.

Ao mesmo tempo, sistemas ligados à recompensa e à busca por novidades já funcionam de forma bastante ativa. Esse desequilíbrio faz com que crianças e adolescentes tenham mais dificuldade para interromper atividades altamente estimulantes.

A American Academy of Pediatrics alerta que o problema não é o uso da tecnologia em si, mas quando ela passa a substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento, como sono adequado, atividade física, leitura, brincadeiras e interação social.

Por causa da elevada plasticidade cerebral nessa fase da vida, os hábitos construídos durante a infância tendem a influenciar padrões futuros de atenção e autorregulação. É justamente por isso que pesquisadores vêm acompanhando com atenção o crescimento de conteúdos produzidos por IA e distribuídos por algoritmos altamente eficientes.

O problema está na inteligência artificial ou na economia da atenção?

É natural associar esse debate à inteligência artificial, mas ela não é a causa do problema. A IA apenas tornou mais fácil produzir grandes volumes de conteúdo. O verdadeiro desafio está no modelo de negócio adotado pelas plataformas digitais.

Hoje, redes sociais e serviços de vídeo fazem parte da chamada economia da atenção, em que o principal objetivo é manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. Quanto maior o tempo de permanência, maior a exibição de anúncios, a coleta de dados e a receita das empresas.

Esse conceito não é novo. Em 1971, o economista Herbert A. Simon, vencedor do Prêmio Nobel, escreveu que "uma abundância de informação cria uma pobreza de atenção". Décadas depois, essa ideia se tornou uma das melhores descrições do funcionamento das plataformas digitais.

A inteligência artificial ampliou esse cenário ao permitir que vídeos fossem produzidos em escala praticamente ilimitada. Em vez de escolher o conteúdo mais informativo ou educativo, os algoritmos tendem a priorizar aquele que gera maior retenção de audiência.

Por que esse tipo de conteúdo é tão difícil de ignorar?

A resposta está no funcionamento natural do cérebro.

Quando encontramos algo novo, inesperado ou potencialmente interessante, nosso cérebro ativa sistemas relacionados à atenção e à motivação. Entre eles está a dopamina, neurotransmissor frequentemente associado à sensação de recompensa.

Embora muitas vezes seja chamada de "hormônio do prazer", a dopamina atua principalmente na antecipação da recompensa. Pesquisas do neurocientista Wolfram Schultz mostram que ela é liberada com mais intensidade quando existe incerteza sobre o que acontecerá em seguida.

É exatamente essa lógica que alimenta os feeds infinitos das redes sociais. Cada novo vídeo pode ser melhor, mais engraçado ou mais surpreendente que o anterior, incentivando o usuário a continuar assistindo.

Outro conceito importante é o reforço intermitente, descrito pelo psicólogo B. F. Skinner. Quando as recompensas aparecem de forma imprevisível, a tendência é que o comportamento seja repetido por mais tempo. É um mecanismo observado em jogos, redes sociais e diversas plataformas digitais.

Isso não significa que vídeos produzidos por IA sejam "viciantes" por definição, mas ajuda a explicar por que conseguem manter a atenção de forma tão eficiente.

O que a ciência já sabe — e o que ainda não sabe

Grande parte das discussões sobre brain rot acontece nas redes sociais, mas a literatura científica ainda trata o tema com cautela.

Até o momento, não existem evidências de que vídeos gerados por inteligência artificial causem danos permanentes ao cérebro. Essa afirmação simplesmente não encontra respaldo nas pesquisas disponíveis.

Por outro lado, há um número crescente de estudos mostrando que o uso excessivo de telas, principalmente quando substitui atividades importantes para o desenvolvimento, pode estar associado a dificuldades de atenção, pior qualidade do sono, menor desempenho acadêmico e desafios relacionados à autorregulação.

Uma revisão publicada na JAMA Pediatrics encontrou associações entre maior tempo de tela e alterações em aspectos do desenvolvimento infantil, enquanto uma revisão da Nature Human Behaviour reforçou que os efeitos dependem de diversos fatores, como idade, qualidade do conteúdo, ambiente familiar e tempo de exposição.

Em outras palavras, a ciência aponta que o contexto importa tanto quanto o tempo de uso. Assistir a um vídeo educativo acompanhado pelos pais é muito diferente de passar horas consumindo conteúdos rápidos e repetitivos sem qualquer mediação.

Essa distinção é fundamental para evitar conclusões simplistas e compreender o problema de forma mais equilibrada.

📊 Como esse ciclo funciona?

Conteúdo altamente estimulante

Mudanças rápidas de imagem, som e narrativa

Maior ativação dos mecanismos automáticos de atenção

Mais tempo de permanência na plataforma

O algoritmo identifica maior retenção

Conteúdos semelhantes passam a ser recomendados

O usuário consome menos variedade de estímulos

A tendência é permanecer mais tempo conectado

Esse fluxo não representa uma doença nem um efeito inevitável. Ele ilustra como plataformas digitais podem reforçar determinados padrões de consumo quando o objetivo principal é maximizar a atenção do usuário.

O que esse debate ensina sobre o futuro da tecnologia?

O fenômeno conhecido como brain rot mostra que o impacto da tecnologia vai muito além do desenvolvimento de novas ferramentas. O desafio está em compreender como essas ferramentas são projetadas e quais comportamentos elas incentivam.

A inteligência artificial pode criar experiências educacionais, facilitar o acesso ao conhecimento e ampliar possibilidades de aprendizagem. Ao mesmo tempo, também pode ser utilizada para produzir uma quantidade praticamente infinita de conteúdos pensados apenas para prender a atenção.

Por isso, especialistas defendem que o debate não deve se concentrar em proibir a tecnologia, mas em promover alfabetização digital, incentivar hábitos saudáveis e desenvolver plataformas que priorizem qualidade de experiência, especialmente para crianças e adolescentes.

Mais do que perguntar se a IA está mudando o cérebro das novas gerações, talvez a questão mais importante seja outra: estamos usando a tecnologia para ampliar nossa capacidade de aprender ou apenas para disputar cada segundo da nossa atenção?

Conclusão

O termo brain rot surgiu como uma expressão popular, mas acabou abrindo espaço para uma discussão muito mais profunda sobre comportamento digital, desenvolvimento infantil e economia da atenção.

Até agora, as evidências científicas indicam que não há motivos para afirmar que vídeos gerados por IA "estragam o cérebro". No entanto, existe um consenso crescente de que ambientes digitais altamente estimulantes merecem atenção, principalmente quando substituem experiências essenciais para o desenvolvimento, como brincar, dormir, estudar e conviver com outras pessoas.

A inteligência artificial continuará transformando a forma como produzimos e consumimos conteúdo. O grande desafio será garantir que essa evolução tecnológica caminhe junto com o conhecimento produzido pela psicologia, pela neurociência e pela educação. Afinal, entender como a tecnologia influencia o comportamento humano talvez seja tão importante quanto desenvolver a próxima inovação.

📚 Continue explorando

Fontes e Referências

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and Young Minds. Pediatrics, v. 138, n. 5, e20162591, 2016. DOI: https://doi.org/10.1542/peds.2016-2591.

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BBC NEWS BRASIL. Reportagens sobre conteúdos gerados por inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese. Acesso em: 29 jul. 2026.

CNN. Reportagens sobre inteligência artificial, algoritmos e comportamento digital. Disponível em: https://www.cnn.com. Acesso em: 29 jul. 2026.

MADIGAN, Sheri et al. Association Between Screen Time and Children's Performance on a Developmental Screening Test. JAMA Pediatrics, v. 173, n. 3, p. 244–250, 2019. DOI: https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2018.5056.

OXFORD UNIVERSITY PRESS. Word of the Year 2024: Brain Rot. Oxford: Oxford University Press, 2024. Disponível em: https://corp.oup.com/word-of-the-year/. Acesso em: 29 jul. 2026.

POSNER, Michael I.; ROTHBART, Mary K. Attention, Self-Regulation and Consciousness. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 353, n. 1377, p. 1915–1927, 1998.

SCHULTZ, Wolfram. Dopamine Reward Prediction Error Coding. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 18, n. 1, p. 23–32, 2016.

SIMON, Herbert A. Designing Organizations for an Information-Rich World. In: GREENBERGER, Martin (ed.). Computers, Communications, and the Public Interest. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1971.

SKINNER, Burrhus Frederic. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.

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VALKENBURG, Patti M.; MEIER, Adrian; BEYENS, Ine. Social Media Use and Its Impact on Adolescent Mental Health: An Umbrella Review of the Evidence. Current Opinion in Psychology, v. 44, p. 58–68, 2022.